domingo, 16 de março de 2014

Todas as emoções eram físicas.
Seu quarto estava uma bagunça. Espelho da sua vida, talvez. Ela, deitada no colchão velho, tinha aquela sensação física de que estava chegando o momento de chorar. Era sempre assim: começava com uma faísca dentro de seu âmago e ela não conseguia evitar, por mais que quisesse.
Então, ela esperava a faísca acender a chama pelo líquido inflamável que ela sentia transbordar daquele recanto interior, e quando isso estava prestes a acontecer, ela entrava em um estado de letargia que até as palavras embaralham-me para explicar. Ela só conseguia observar. O material do velho cobertor, a janela entreaberta, os grãos de poeira embaixo da cama. Seu corpo não reagia. Sentia um peso de uma tonelada lhe prendendo os movimentos. Só o que conseguia mover eram os olhos e o sistema que acende a faísca, agora, a cada vez mais perto da explosão.
E ela se recordava de dias bonitos, que não voltam mais.
Se lembrava de risos genuínos, que agora se calam.
E queria trazer de volta aquela velha nova pessoa que nunca chegou a ser alguém.
E sentia os cheiros daqueles lençóis, o cheiro daquela boca, a voz aparecia-lhe aos ouvidos, da mão que esmagava o seu coração como se ele fosse de brinquedo. Bom, talvez o fosse, mas não para ela. E sua cabeça gritava: PARE JÁ! -- ela sabia que estava sendo ridícula, mas não podia evitar tanto querer. E chorava e queria e queria e chorava.
E se tivesse um lampejo de sorte e as coisas acontecessem como ela tanto esperava, ela sabia que seria uma lembrança descartável. Só um convite mefistofélico, uma hora e nada mais e, enquanto ela queria aquilo mais do que qualquer outra coisa no mundo, para ele era só uma forma de se aliviar. Então, ela deixava-se dormir em outras camas, beijar por outros beijos, conhecer outras gentes, mesmo que nada fosse tão incrível comparado àquele estranho tão conhecido de seus mais profundos sonhos.
Explodiu.
Agora ela só quer que o dia acabe e que venham outros e mais promessas - feitas por ela mesma - de ilusões infundadas.
Fim da letargia. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

- Então é assim que você me enxerga?
- Não. É assim que você faz-me sentir. Eu te enxergo através de paisagens tão maravilhosas que nem o mais talentoso pintor ousaria captar. Eu teria um mundo para te dar, mas é uma pena que, de você, eu só receba dor.

Então, ela foge.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

E o céu estrelado era um convite ao sonho. Era o que ela mais fazia, nos últimos dias. Quem sabe, até, nas últimas semanas. Meses.
Nesses sonhos, se percebia viajando para longe. Para reinos perdidos onde ela era senhora. Para paraísos onde experimentava abraços que outrora havia sentido na pele.
Não contava as estrelas, mas ouvia suas vozes que sobrepujavam umas as outras, e todas eram lindas. Cada uma contava uma história mais bonita que a outra, histórias que nunca aconteceram, mas que ela desejava ter vivido. E, assim, ela sonhava.
É quase utopia acreditar que, no céu da cidade cinza, as estrelas pudessem ter voz. Mas tinham. E eram doces e melodiosas.
Hoje, ela escolheu ouvir a voz de uma estrela que caía devagar. Parece um tanto absurdo, mas não se enganem, essa estrela dizia que, em algum lugar perdido no planeta, havia alguém que também ouvia a voz das estrelas. E que a reunião dessas duas almas era só questão de tempo (e paciência). E que a vida seria em cores. Sem dores. Não foi possível pedir detalhes: a estrela caía e se apagou antes do felizes para sempre do final.
Mas, de alguma forma que ninguém poderia explicar, ela acreditava. E assim, sonhava.

I'll be chasing a starlight, until the end of my life.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Naturalmente ela se sentia sozinha.

E ouvia daquela boca monstruosa, cheia de dentes amarelados, que era legal ficar sozinha. Que ela "gostava" de ter um tempo só para ela, onde o marido não enchia o saco, onde a sogra não dava palpites, onde o barulho não a incomodava, onde podia ler seus romances de menina virgem em paz.
Naturalmente que ela achava tudo isso o suprassumo da alegria.

Será que se sentiria assim, se houvesse experimentado a solidão real? Aquela que corta, aquela que toca, abraça e envolve?
Será que acharia gostoso ler um livro qualquer, se a voz da solidão sussurrasse em seus ouvidos de forma tão audível que seria impossível se concentrar?
Será que suportaria um dia ouvindo as vozes que vêm de dentro da cabeça dos solitários, sem enlouquecer?
Será que suportaria olhar para o céu e ver a imensidão do nada que a solidão traz?
Será que suportaria viver um dia sem motivos?

Evidente que não. Mas, em meu papel de mulher que abraçou a solidão como melhor amiga e, de braços dados com ela escuto o discurso de quem não tem do que reclamar, troco pensamentos por telepatia com a solidão. Dizemos uma a outra "pobre, ela não sabe o que diz." (...)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Eu nem comecei a escrever e o nó já é presente. Aquele velho nó na garganta que sempre aparece nos dias que eu não consigo suportar. Ele tem aparecido frequentemente, sobretudo nos dias em que eu me sinto sozinha.
E eu penso "foda-se, eu tenho Eddie Vedder, Llosa e alguns carinhas que sempre estão por aí", mas aí eu ouço. É uma voz que berra dentro de mim, que esperneia, que descabela. Eu quase perco o controle. E ele vem, o nó.
Parte dele se faz por causa daquele moço novo.
Foram apenas três dias e duas noites, mas eu sinto como se fosse uma eternidade.
Eu disse que minha versão da história havia sido muito mais interessante que a dele; ele fez pouco caso. Eu quase posso ver o sorriso de desdém dele ao discordar de toda a opinião que dou. Minha história não tem apenas pegadas, suspiros e suor. Minha história tem cheiro. Tem aquela minha palpitação característica. Aquela falta de fôlego que sempre me acomete à noite. 
Minha história é aquela de alguém que acorda ao meio da noite e encontra um estranho ao lado. Em um lapso de consciência, pergunta-se o que raios estaria fazendo ali, seminua, nos braços de um completo estranho. Mas que, em seguida, relaxa e pensa que não há outro lugar no mundo em que mais gostaria de estar do que naquele lado da cama estranha, no quarto estranho, no apartamento estranho, no prédio, na rua, no bairro, na cidade, estranhos. Tudo era estranho. A única sensação de familiaridade era aquela que vinha de dentro para fora: era bom. Era o certo, embora unilateral.
Isso. Era.
Porque hoje nada disso existe mais.
E sabe, não é amor. Não é paixão. Mas decepciona-me o fato de o ter encontrado numa dessas voltas da vida e ela, sempre ela, não ter me dado a oportunidade de aproveitar direito. Eu sinto o cheiro do beijo dele, um cheiro tão diferente - acredito que eram as faíscas que soltávamos. Um cheiro de ferro, de sangue, um cheiro bom que me vem como um tabefe e eu lembro que ele está ali, incrível, inatingível, alto, longe. Fora do meu alcance.
Tão inalcançável como Eddie Vedder, que canta no repeat que ele-acredita-porque-pode-ver-nossos-dias-futuros-dias-de-eu-e-você. E Mario Vargas Llosa, que ensina para quem quiser aprender como são os dias dos desafortunados apaixonados*.
E hoje eu escrevo sobre ele.
Que não sabe daqui. Que não sabe de mim. Que é misterioso e ambíguo. Que é sagaz. Que tem o meu tamanho. Que tem lindos olhos verdes (clichê que nunca usei em meu favor). Que só ele quis nascer com boca. Que tem um sorriso lindo. Que olha nos olhos quando... bem, você sabe. Que não me sai da cabeça. Que é incrível. Que não permite que eu me aproxime. Que não me deixa o conhecer de verdade. Que não me quer por perto. Que eu talvez nunca mais vá ver.
Eu só queria poder provar que ele seria o ideal para mim, mesmo ele tendo a extrema dificuldade em acertar os porquês. Gramaticalmente falando. Ou não.

Mas é isso aí, vida.
Você me bate daí, eu apanho daqui. E rezo para chegar o dia em que eu não me sentirei mais sozinha. Até lá, vou dando um jeito de acalmar esses maremotos emocionais em que você me coloca.

Ah....! 



*Ver Travessuras da Menina Má (Mario Vargas Llosa) para entender o que sofre um pobre apaixonado.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Hoje foi a última consulta de 2013 com a psicóloga.
Quem diria.
Foi um ano de turbulências, de quedas infinitas, de longas madrugadas amargando o fundo do poço, de dores incuráveis.
Mas hoje, sentada lá naquele mini sofá, já tão familiar para mim, nós conversamos sobre derrotas e vitórias de 2013. E, qual não foi a minha surpresa ao notar que, o que eu julgava ter sido minha maior derrota em 2013, na verdade, foi minha maior vitória.
Há quatro meses atrás, tiraram meu chão. Mas eu tive que me reerguer, e fiz isso a muito custo, mas me levantei. E hoje estou aqui para dizer que sim, HOJE, sou uma pessoa mais feliz. Alguém completa.
Sou alguém que agora percebe que não é necessário ter alguém para se sentir preenchida. Não, não é necessário alguém para te levar ao shopping e te dizer qual tênis você deve ou não comprar. Porque isso, é uma decisão minha. SÓ MINHA. 
Sou alguém que agora percebe que é possível correr atrás de sonhos impossíveis e que as únicas limitações, são aquelas que nós próprios colocamos.
Sou uma pessoa que faz o que quer da vida, sem me importar com o que os outros vão pensar. Sou alguém que não precisa agradar ninguém, pelo simples fato de que, agora, posso ser transparente. Sem convenções sociais.
Me transformei em uma pessoa que vai onde quer, quando quer, com quem quer, sem que satisfações precisem ser dadas. Já não piso mais em ovos ou fico pensando em "como vou explicar isso?" - eu apenas faço o que eu tenho vontade.
Me transformei por dentro e também por fora, porque rumores dão conta que até mais bonita eu fiquei.
Enfim, o que importa dizer é que, hoje, eu sou mais madura, mais consciente e mais dona de mim. E não, em 2014 e nos próximos anos que virão, eu não vou deixar isso se perder. Vai ser minha essência. Não vai ter uma só pessoa que vai me regular, me dizer como devo me portar, dizer o que eu devo ser. Minha vida é só minha.
E, meus caros, eu vou regê-la conforme a minha música, com licença.


VEM 2014!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sempre que eu me sinto transbordar de você, eu sinto a necessidade de te escoar.
Te escoar para longe daqui, para longe de mim, para longe de minha pele, onde ainda te sinto, ainda te vejo, ainda te quero.
E eu me deito, fecho os olhos acreditando que foi só uma recaída de um dia ruim, mas adivinha quem vem me visitar em sonhos?
Sim, você.
Por que você não me deixa?
Por que insiste em marcar-se em mim como tatuagem?
Por que vem, se eu já disse para ir?

E eu sonhei com aqueles dias na praia, onde era só meu e eu era só sua. Com a sua nuca, com suas pernas e voz. Sonhei com seu toque. E com aquela sua empolgação com aquele primeiro livro grande que você terminara. Sonhei com todo esse amor que guardo comigo. Sonhei e sonhei e sonhei.
Sonhei que o mar te engolia.
Sonhei que você ia embora com as ondas.
Sonhei que eu ultrapassava as ondas mais altas para ir atrás de você, sem sucesso. Quanto eu mais nadava para o fundo, mais para longe o mar te levava. Parecia um labirinto. Eu não te alcançava. E você foi embora, sem que eu pudesse me despedir, sem que eu pudesse dar um último beijo, sem que pudesse enxergar brilho em seus olhos, pela última vez em minha medíocre vida.

E sonhei que ficava arrasada. Eu não pude te salvar.
Eu não consegui te buscar.
Eu não te puxei para fora. Eu não te alcancei.
Eu desisti.
Eu deixei você ir.

Minha mente é um pequeno ponto de dor. E quando eu acordei, ele latejava. Na continuação daquelas cenas de sonho, eu era impedida de te ver, quando você voltava, já sem vida, do mar. Eu não era querida. Eu era motivo de constrangimento. 

Onde estava você?
Que outrora dividiu aquele sofá cama comigo; que jurou me amar?
Que me abraçou forte quando tive frio e me acalmou quando me faltava o ar?
No meu sonho, você tinha ido embora.
E comigo, na vida, o que ficou?
Apenas lembranças, flashes, cenas de um filme sem final.
Eu juro, eu tenho tentado reescrever esse filme com um final só meu, um final que só a mim cabe, uma coisa de amor-próprio-egoísta-eu-me-amo. Mas, tem dias que simplesmente não dá, e você volta.
Seu fantasma me assombra.

Por que você não vai embora de vez?
Ou...
Por que será que você não volta para ficar?
Hoje, eu deito e espero sonhar com você. Mas que o final seja diferente. E quero sonhar com intensidade, acreditar que é verdade, abrir os olhos e poder te tocar.
Como eram aqueles dias.
Dias que não voltam e não se repetem.

Ainda tenho os pés na areia e observo o horizonte. O sol vai embora, mas eu fico. Eu sempre fico.