Naturalmente ela se sentia sozinha.
E ouvia daquela boca monstruosa, cheia de dentes amarelados, que era legal ficar sozinha. Que ela "gostava" de ter um tempo só para ela, onde o marido não enchia o saco, onde a sogra não dava palpites, onde o barulho não a incomodava, onde podia ler seus romances de menina virgem em paz.
Naturalmente que ela achava tudo isso o suprassumo da alegria.
Será que se sentiria assim, se houvesse experimentado a solidão real? Aquela que corta, aquela que toca, abraça e envolve?
Será que acharia gostoso ler um livro qualquer, se a voz da solidão sussurrasse em seus ouvidos de forma tão audível que seria impossível se concentrar?
Será que suportaria um dia ouvindo as vozes que vêm de dentro da cabeça dos solitários, sem enlouquecer?
Será que suportaria olhar para o céu e ver a imensidão do nada que a solidão traz?
Será que suportaria viver um dia sem motivos?
Evidente que não. Mas, em meu papel de mulher que abraçou a solidão como melhor amiga e, de braços dados com ela escuto o discurso de quem não tem do que reclamar, troco pensamentos por telepatia com a solidão. Dizemos uma a outra "pobre, ela não sabe o que diz." (...)

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