Seu quarto estava uma bagunça. Espelho da sua vida, talvez. Ela, deitada no colchão velho, tinha aquela sensação física de que estava chegando o momento de chorar. Era sempre assim: começava com uma faísca dentro de seu âmago e ela não conseguia evitar, por mais que quisesse.
Então, ela esperava a faísca acender a chama pelo líquido inflamável que ela sentia transbordar daquele recanto interior, e quando isso estava prestes a acontecer, ela entrava em um estado de letargia que até as palavras embaralham-me para explicar. Ela só conseguia observar. O material do velho cobertor, a janela entreaberta, os grãos de poeira embaixo da cama. Seu corpo não reagia. Sentia um peso de uma tonelada lhe prendendo os movimentos. Só o que conseguia mover eram os olhos e o sistema que acende a faísca, agora, a cada vez mais perto da explosão.
E ela se recordava de dias bonitos, que não voltam mais.
Se lembrava de risos genuínos, que agora se calam.
E queria trazer de volta aquela velha nova pessoa que nunca chegou a ser alguém.
E sentia os cheiros daqueles lençóis, o cheiro daquela boca, a voz aparecia-lhe aos ouvidos, da mão que esmagava o seu coração como se ele fosse de brinquedo. Bom, talvez o fosse, mas não para ela. E sua cabeça gritava: PARE JÁ! -- ela sabia que estava sendo ridícula, mas não podia evitar tanto querer. E chorava e queria e queria e chorava.
E se tivesse um lampejo de sorte e as coisas acontecessem como ela tanto esperava, ela sabia que seria uma lembrança descartável. Só um convite mefistofélico, uma hora e nada mais e, enquanto ela queria aquilo mais do que qualquer outra coisa no mundo, para ele era só uma forma de se aliviar. Então, ela deixava-se dormir em outras camas, beijar por outros beijos, conhecer outras gentes, mesmo que nada fosse tão incrível comparado àquele estranho tão conhecido de seus mais profundos sonhos.
Explodiu.
Agora ela só quer que o dia acabe e que venham outros e mais promessas - feitas por ela mesma - de ilusões infundadas.
Fim da letargia.

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