Pelo quarto, estilhaços do dia anterior. Roupas jogadas ao canto e móveis em desordem. Algo dizia que a noite havia sido esplendorosa, porém, ela mal se recordava.
Uma luz tênue e quente invadia o quarto, pela fresta da janela recém pintada. Ela havia escolhido o verde, embora não entendesse porque.
Não sentia calor, nem dor. Sentia uma moleza típica de um sábado à tardezinha, quando a noite não te convida a dar uma volta.
Só que era domingo, e o que ela se recordava de seu sábado era de ter tomado um coletivo pelo subúrbio, em busca de algo que nem ela sabia, querendo chegar a um destino qualquer, e nesse coletivo, encontrara uma pessoa querida, que lhe sorriu. Era aquele mesmo sorriso de outrora, tão fechado e convidativo, cheio de mistérios. Ela, então, não desceu onde deveria e nem sua companhia, ao contrário. Os dois foram até o acaso da vida e por lá deixaram-se ficar, contando histórias, causos, coisas e memórias.
'Ao acaso' - brindavam. A cerveja era gelada e o lugar aconchegante. Aquela pessoa era a essência de tudo. Ela sentia seu estado de espírito aquecer; fazia tanto tempo que esperava aquele reencontro, e ele chegara.
As horas voaram.
As mãos, à exemplo dos olhos, encontraram-se.
E lá estava, o sorriso.
Se lhe perguntarem a respeito desse sorriso, é capaz de ouvirem uma explicação poética e ininteligível, algo que reduzisse toneladas ou quilômetros de sentimentos em dentes, lábios e expressão.
E ela lhe sorriu de volta.
Pagaram a conta - agora ela se recordava de tudo. Chamaram um táxi, mesmo sem decidir qual seria o destino final. Aliás, "final" era a palavra que nenhum dos dois concebiam. Agora que o acaso havia começado, cabia a eles não permitir o final se aproximar. 'Vamos para casa' - ela disse, corando levemente.
Chegando lá, entraram. Ele se instalou na poltrona com vista para a cozinha e, distraído, brincava com o gato de estimação dela, que era um tanto vadio e arisco.
Ela, fazia um café na cozinha. Olhou-o. Ele parecia extremamente belo. Ela parecia extremamente feliz, jovem e viva.
Lembrou o primeiro encontro. Sorriu, grata pelo destino que tinha sido tão amigo.
O café chegou com um beijinho. E logo esfriou. Devido a saudade que mantinham, a bebida foi esquecida em cima da mesinha de centro, junto com o controle remoto da TV. O gato pulou a janela e foi vadiar na noite, que estava quente.
Já era domingo, e ela tinha aberto os olhos.
Não se recordava de como havia chegado até ali. Se lembrava vagamente do calor, do perfume, do coração, da pele e daquele sorriso. Ainda sem coragem de olhar para o lado, fechou os olhos. Seus cabelos roçavam gentilmente seu pescoço pálido e a preguiça se instalava.
Virou-se, de súbito. Encontrou o outro lado da cama vazio.
Então, ela sabia que havia sonhado.
Havia sonhado, como milhares de outras vezes. Não conseguia lembrar se sonhara a noite inteira ou se alguma parte do sonho fora real.
Sentiu-se esmorecer. O quarto agora caía na penumbra.
Levantou-se e foi cuidar de seu domingo, como havia cuidado de todos os outros dias quando não sonhava com coisas tão reais.
Chegando à sala, procurava seu gato. Assim que o bixano a avistou, foi logo se aninhar no colo dela. Ela usava uma camiseta de mangas longas e seus cabelos despenteados lhe dava um ar infantil.
Sorriu, acariciando o gato, reparava.
Na mesa de centro, haviam duas canecas com café frio, ainda por tomar. A sala tinha um aroma familiar, cores transluziam pelo vidro da janela.
E ela sabia que aquele não era o final, enfim.
O som do telefone despertou-a daqueles pensamentos. Sem tirar o sorriso dos lábios, ela sabia quem chamava do outro lado da linha.

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