quinta-feira, 15 de abril de 2010

Me apaixonei por um desenho. Por uma pintura que eu mesma desenhei, usando giz pastel vermelho e carvão.
Trouxe aquela minha pintura à realidade. Percebi o quão incompleta era. Mas, para mim, aquela era minha obra prima. A pintei com um sorriso triste; aquele mesmo que Herculano retratara.
A chamei para a chuva. Ela não desbotava. A cada dia, mais cores eram incorporadas à minha pintura. Seus olhos brilhavam feito estrelas. Quase sentia o seu pulsar vermelho rubi junto ao meu, tão forte era a nossa ligação.
Como pude inventar algo do tipo? Algo que gostava de pipocas com bacon e batatas smiley. Que transmitia com o olhar a experiência de anos, porém, vivera menos tempo que sua criadora. Só podia ser real.
E, tão real o era, que parecia que tinha vida própria. Sabia aparecer quando necessário e alastrar sua luz pela minha escuridão. Sabia sumir quando eu precisava dissimular a vergonha que eu não possuia.

Fatídico dia, minha pintura se despregou da tela. De modo suscinto, disse que não podia ficar. Me desesperei, procurei mil palavras pra dizer que ela tinha de ficar, afinal, eu a havia criado!
(E só agora enxergo que ela se foi por minha causa).
Palavras faladas não era o seu forte. Me deu um beijo no rosto, manchou-me de vermelho, laranja, amarelo, roxo. Minhas lágrimas azuis terminaram o serviço.
E lá eu olhava minha pintura indo embora.
Passei dias tentando trazê-la de volta, através de releituras de momentos, no papel. As lembranças queimavam em minha mente, que já estava em carne viva. Porém, eu gostava da sensação, afinal, quando invocava minhas lembranças, sentia minha pintura ali. Comigo.
Ilusão. É disso que as pessoas reais são feitas. Somos um saco de ossos e carne, com um punhado de sonhos e o resto é só ilusão.

Minha pintura, em dado momento em que permitia ser real, disse que eu a pintava de modo que ela não era. Disse que me corroeria pensar que ela era do jeito que eu a havia criado. As letras eram pretas, cansadas. O desenho, desbotado. Os gestos, cada vez mais gelados e em cores frias; o que outrora era totalmente colorido, como o pôr do sol, após um dia que o astro rei se fizera soberano no céu azul.
Sumiu. Fugiu. Ignorava minhas palavras. Idealizei tanto a minha pintura, que já começara a achar que se tratava de alguém como eu e você, que lê e acha patético alguém se relacionar com uma tela de poliéster. Mas, ela me dizia: "não coloque onomatopéias em seus textos"; "sonhe", e outras tantas coisas, que era impossível não achar que tratava-se de mais um habitante falho da Terra.
Ela fazia o possível para se anular. Apagar sua existência da minha; fingir que nunca existira. E eu, por mais que prometesse deixá-la ir, era necessidade básica fazer-me real na vida dela.

Durante um desses meus devaneios, acenei. Não a reconheci. Já não haviam sorrisos tristes. Nem tampouco sorrisos! Acompanhara-me com o olhar, como se eu fosse uma estranha. Como se ela fosse um autorretrato, auto suficiente, e não minha criação. Não, não era aquele meu papel. Não era minha tela e minha tinta. Não eram aquelas as minhas tonalidades, sentimento e carne.
Decidido. Estava mais do que na hora de a pintar como ela realmente era.
Gastei algumas folhas de papel, alguns lápis de cor e giz de cera com os rascunhos. Nada me parecia com vida, como minha obra prima. Nada me sorria, ou tampouco, me ignorava.
Aliás, nada podia se comparar àquele sorriso.

Aqui, deixo claro minha fraqueza e exprimo minha verdade: Desisto! Desisto de tê-la e também desisto de tentar me magoar, pra ver se a esqueço logo. Desisto de tentar, ao menos, fazer uma ponta no filme que passa na tela widescreen que agora assisto.
Para quem se interessar, esse filme conta a história de uma menina que não podia, mas acreditou.
Idealizou um desenho que não parecia, mas era real.
E, no ápice do filme, a sentença determinante:
- Segue sua vida - ela disse ao papel, derramando a derradeira lágrima azul.

E eu não quero saber como o filme termina. Levanto-me e deixo o cinema, vazio.

"If anything should happen,

I guess I wish you well."

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