Guarulhos (SP), Conselheiro Crispiniano, 1999
Quando eu estava na quinta série, com onze anos de idade, eu tinha duas grandes amigas: Camila e Adriane. Éramos as nerdzinhas da sala, quietinhas e ainda interessadas nas coisas de nossa recente infância. E passávamos os dias assim, desenhando, pensando em brincadeiras, doces e bonecas.
No meio desse ano fatídico (ou não), a Adriane criou um ciúme destrutivo dentro dela, achando que a Camila gostava mais de mim do que dela, coisa que não era verdade. Éramos todas iguais!
Em um desses surtos, ela falou pra Camila que eu tinha inventado mentiras com o nome dela, envolvendo meninos, para escola. Que calúnia! Que coisa suja, envolver o nome de uma amiga com meninos! Antes fosse com qualuqer outra coisa, meninos?! Éca. - Era assim que eu pensava. E de fato eu não tinha inventado nada, eu era tão bobinha e sem imaginação! Jamais teria capacidade de fazer mal a ninguém, ainda mais para uma das minhas melhores amigas.
Enfim, conclusão: a Camila virou a cara pra mim, e começou só a andar com a Adriane. Nada do que eu falasse ia mudar aquela impressão que a Adriane tinha deixado em mim para a Camila. E o meu papel foi observar elas conversarem nos intervalos, sempre sorridentes. Quando nossos olhos se esbarravam, os sorrisos desapareciam, e isso acabava comigo. Logo eu, sempre tão pequena e ingênua!
Alguns dias se passaram assim, quando eu tentei me aproximar de novo da Camila. Não queria mais saber da Adriane, tinha era raiva dela, coisa que eu nunca tinha sentido por colequinhas de escola. Sem sucesso, ela disse que nunca mais olharia na minha cara. Desisti.
Na época, os professores do estado estavam em greve, só que minha mãe me obrigava a ir estudar mesmo assim. Mesmo sabendo de que eu teria TODAS as aulas vagas. E em uma ocasião dessas, eu estava na pracinha indoor, que quem conhece a escola que estudei, sabe bem como é. Ou pelo menos costumava ser. E estava lá, sozinha. E chorava.
Quem me conhece.
Sabe que eu só sei.
Chorar.
Estava nessa situação humilhante, quando uma outra menina veio ao meu encontro. Ela tinha os cabelos cacheados mais legais que eu já tinha visto e os olhos castanhos. Achei que ela parecia bastante comigo, a não ser o tamanho. É, eu sempre fui a menor da turma. Ela se sentou do meu lado e mais simples e direta, impossível, ela disse: "Oi, eu sou a Camila e estudo na sua sala. Quer ser minha amiga?"
Como que eu nunca tinha reparado nela? Sim, ela tinha o mesmo nome da minha ex-amiga. E explicou dizendo que eu podia fazer parte da turma dela, agora que eu estava sozinha, disse que observava há tempos a angústia que estavam me fazendo passar. Eu aceitei de pronto, mas nunca achei que alguém pudesse substituir a minha antiga Camila.
Na hora de apresentar a nova turma, descobri que ela era tão sozinha quanto eu. Me senti tão culpada! Como aquela menina que me viu chorar tantas vezes estudava na minha sala, tinha o mesmo nome da minha ex-amiga, sentava-se sozinha nas aulas? Como eu não tinha reparado nela? Ainda mais com aqueles cabelos legais que ela tinha. E me senti culpada mais uma vez, por valorizar o que não tinha valor.
E assim, a nova Camila passou a ser a minha Camila. A Camila número um. Minha melhor amiga pra tudo, pra subir, descer, correr, andar, sentar, comer, chorar, rir, cantar, amarrar, desamarrar, escalar, jogar, aprender, ler, escrever, contar, inventar, sobreviver, viver.
E ficamos nessa por dois anos. Crescemos juntas, nos apaixonamos pelo mesmo menino idiota, onde prometemos nunca ficar com ele, pra não magoar a outra. Mas, claro, ele foi o meu primeiro beijo. Ela sabia de tudo, desconfio que ela tenha ficado chatiada, mas abriu mão dele por mim e nossa amizade não tremeu nem meio grau na escala Richter. Pra completar, ele foi um completo idiota, como castigo talvez. E quem estava do meu lado? A Camila.
Hoje em dia isso parece tão pequeno e infantil, mas na época significava muito pra mim. Nela eu encontrei todo o apoio. Todo o conceito de amizade e companheirismo eu aprendi com ela. O exemplo de amiga que eu quero seguir, e ser pra sempre.
Uma série de atitudes desesperadas e mal tomadas fizeram com que eu mudasse de escola. Muito a contragosto, meus pais queriam que eu estudasse em um colégio particular. Tive que me separar dela, dos sorrisos diários, daquele cabelo cacheado legal. Prometemos sempre nos comunicar, através do telefone. Sempre que nosso número trocasse, iríamos avisar. Frequentei a casa dela até bem depois de ter mudado de escola. Os dias com ela eram os melhores! Conheci tanta coisa com ela, até o meu desinteresse por coisas que a maioria dos adolescentes (inclusive ela) se interessava na época. E perdi a oportunidade de aprender mais uma porção de coisas.
Conforme o tempo foi passando, eu fui fazendo outras amizades na nova escola, e deixando a Camila um pouco de lado. Ela também seguiu a vida dela. Infelizmente, isso tudo aconteceu antes do orkut, msn, internet. E quando eu me dei por conta, tinha perdido totalmente o contato com ela.
No terceiro colegial, tentei voltar à antiga escola, sem sucesso. Teria que me contentar com a vida sem cabelos cacheados.
Ainda tenho o antigo número de telefone na cabeça. Sim, já tentei discar, a ligação não completa.
Já tentei procurar ela na comunidade de nossa antiga escola. Sei lá, eu não entraria em comunidade nenhuma de escola. HAHAHA. Não encontrei ela lá também.
Já conversei com amigos em comum, ninguém sabe dela.
Me resta ir na casa onde ela morava, casa essa em que eu guardo tantas lembranças! Porém, me falta coragem. E se eu passasse lá, e a casa estiver vazia, fria, abandonada? E se a mãe dela me atendesse com aspecto cansado, dizendo que a Camila não está mais entre nós? E se um desconhecido me atendesse dizendo que havia comprado aquela casa de uma família que se mudou para o... Amapá? Não sei se vale a pena destruir toda a esperança que eu tenho de encontrar ela caminhando no shopping de mãos dadas com um menino vizinho dela, que tinha olhos azuis e que ela sempre gostou.
Queria encontrá-la por aí.
Sorrindo.
Sem chapinha.
Queria que ela se lembrasse de mim com o mesmo carinho em que eu ainda lembro dela.
Queria mesmo, que no dia que eu criar coragem e passar por lá, ela estivesse lá, e atendesse o portão. Acho que eu ia fazer algo muito igual a tudo que já fiz.
Me (re)apresentaria.
Abraçaria.
E choraria.
Alguém ai conhece a Camila Santos Silva? A minha Camila? A minha primeira grande e melhor amiga?
Não tenho fotos. Guardo na memória. E como a saudade daqueles dias tem me doído.

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