Ela decidiu ir embora.
Decidiu sim, colocou aquilo na cabeça e não avisou ninguém. Apenas iria.
Já havia se cansado de viver naquele lugar corrupto, cheio de gente vazia. Lugar onde as pessoas são felizes às custas da tristeza do próximo.
O poeta dizia que era preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã... E para ela, cadê o amor?
Durante todos esses anos, ela fez muito mais do que amar: Ela se doou. Ela se dobrou em um milhão de pedacinhos para multiplicar. Ela queria fazer dar certo.
E agora, o que sobrou?
Sobrou o desprezo, o silêncio. Sobrou a cama vazia, o travesseiro molhado. Já não há mais carinho e nem companheirismo. Ela foi descartada, como um copo plástico, uma pilha que acaba, um invólucro vazio.
Aliás, "invólucro vazio" é exatamente a metáfora que melhor se aplica ao que ela se transformou. Ela é vazia. Esvaziou-se seu amor, seu amor próprio, sua coragem e o pior: sua vontade de viver.
Ela apenas sobrevivia.
Enquanto ela se esforçava para recolher e colar os multipedacinhos de seu coração, que foi estraçalhado e abandonado por aí, eles, tão jovens e felizes, faziam questão de surrupiar novamente esse coração remendado e jogá-lo contra a parede. Brincar de futebol. Chute a gol, pingue-pongue. Cada dia uma brincadeira diferente. E lá estava ela novamente, agachada, dia após dia, recolhendo os multipedacinhos do coração já esmigalhado. E eles riam! Ah, como era divertido ver essa cena! Não importa os anos divididos, todo o amor que se dizia correspondido, todo o carinho que se prometeu manter... Essa cena era muito gratificante e enchia o coração dos novos enamorados de prazer! Às custas da destruição alheia, sim, mas não dava para evitar. É sempre bom ter uma pitada de humor negro em nossas vidas.
E ela recolheu esse coração (ou o que restara dele) e resolveu se esconder. Resolveu partir.
Já não frequentava aqueles mesmos domínios de antigamente. E, por mais que ela ainda fosse procurada por eles, ela se escondia. Fugia. Seu coração doía. Batia. Batia muito. Descontroladamente.
Mas ela não queria mais ficar perto, ter proximidade, perceber que tinha sido jogada no lixo.
E ela resolveu ir embora.
E não avisou ninguém.
Juntou suas coisas numa mala velha e saiu.
Bateu a porta da rua, com o coração na mão e a cabeça na névoa da lembrança, ela foi.
E jurou que não iria olhar para trás.
Quem se acha no direito de invadir a vida de uma pessoa, roubar-lhe o coração, despertar o seu mais puro amor, sem a intenção de retribuir, nada mais é do que um completo covarde.
E a dor é menor do que parece, quando ela se corta ela se esquece. (Renato Russo)
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
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