Cheguei em casa e o telefone tocava, gritava, esperneava atenção.
E então eu decidi não atender nenhuma ligação, pois assim que o escutei, a frase que maquinalmente falo assim que atendo cada ligação naquele escritório saiu do meu cérebro e foi parar na ponta da minha língua. Não. Era sexta feira, e eu não queria mais atender ligações. O deixei tocando, sem importância.
Tomei um banho, e a licença poética me deixa dizer que fiz um chá, mesmo não tendo feito. Odeio chá, porém se encaixa no contexto. Sentei-me em minha poltrona preferida, imaginando como estaria sendo outras sextas feiras por aí.
Pensei naquela minha amiga, tão descolada. Aposto que ela estava fazendo algo.
Pensei naqueles milhões de pessoas que se calam durante o expediente esperando as horas passarem para um belíssimo happy hour. Pensei naquela que não apareceu por hoje. Pensei em coisas que queria evitar. E lá o telefone estava, esgoelando. Coitado, mal ele sabia que eu não estava pra ninguém.
Pensei naquela menina de dezoito anos que havia engravidado do namorado de trinta e cinco. Aqui, a licença poética me deixa dizer que bebia uma taça de vinho, embora não tenha feito. Odeio vinho, tanto ou mais que chá. E então lembrei de uma sexta, de um domingo, de uma semana que já havia passado. Lembrei que minha colega de trabalho mantinha uma lista simples de coisas a serem realizadas, e eu fiquei meio abismada quando li o primeiro item, que era 'esquecer'. Mas, hoje, nessa sexta feira, isso fez todo o sentido do mundo pra mim. Porém, mais uma vez, eu tinha esquecido de esquecer.
Pensando, lembrei que um amigo de longa data, que estava tão distante, completava anos. Fui à internet, desejar felicidades em um site de relacionamentos. Assim que deixei meu recado, ele apareceu no messenger, e conversamos por aproximadamente dez minutos. Me perguntei de onde estava surgindo aquela saudade. Era uma saudade de tempos passados, onde eu era inocente e acreditava que uma amizade podia durar pra sempre. O tempo em que eu era uma única menina de um grupo de quatro pessoas. Eu tinha dezesseis naquela época, eu era um pouco alienada e esquisita, mas me sentia bem naquele lugar que me pertencia. O tempo passou e ficamos cada um por um lado. E eu nem sabia que tinha tanta saudade estocada aqui.
O telefone ainda tocava; resolvi atendê-lo. Aliás, explicando minha pontuação nessa frase, EU USO O "PONTO E VÍRGULA" QUANDO EU BEM ENTENDER. Minha professora tinha me corrigido há uns dias, dizendo que eu complicava minhas sentenças e que eu daria aula para a quinta série, e que eu tinha que ser simples.
Quase disse para ela que eu não iria dar aula, e saí batendo portas.
Deus, queria coragem.
E o telefone ainda tocava, era esse o ponto. Resolvi atendê-lo. Atrás daquele aparelho, uma voz tão familiar me falava naquele speaker. Era uma voz de robô, mas tão familiar. A reconheci. Me vieram lágrimas. Quis botá-las para fora. Não entendi minha reação. Tal pessoa nunca me faria chorar se me ligasse há um tempo atrás.
Quando, percebi.
Aquela pessoa representava uma outra saudade que eu não sabia que guardava.
Aquela saudade que eu escrevi um dia, de quem era e não é mais. Foi o mais próximo que eu cheguei de fazer parte daquela vida. Era como um último fio que me segurava àquela realidade, que eu queria me agarrar, mas não era mais minha. Uma realidade dura me esperava quando eu desligasse o telefone.
Desliguei.
Estava tão sozinha quanto no início.
E sei que aqui eu não escrevi nada do que tinha intenção de escrever. Pensei o dia inteiro sobre escrever que eu não queria me tornar uma pessoa com cor de escritório, que vive para o trabalho, que faz cursos de aperfeiçoamento só para agradar chefes. Pensei em dizer como minha amiga: "Eu quero mais, quero ser mais", e questionar o motivo das coisas.
Mas, não saiu.
Queria dizer que o que me inspirava, agora só me tira a concentração.
Beeshop, canta.
A licença poética agora me deixa dizer que estava bêbada e triste, embora o primeiro adjetivo não seja verdadeiro.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
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